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O Projeto
Pré-Textual
Introdução
Relato da Experiência
Considerações Finais
Breve Histórico
do Casamento
Referências
Anexos
Apêndices
Ficha Técnica
Fotos
Contato


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2 RELATO DA EXPERIÊNCIA

2.1 Pré-produção

A idéia de fazer um vídeo sobre casamento surgiu a partir do documentário Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse), de Agnès Varda. No filme, a diretora “cata” andarilhos aqui e ali na França e, entre essas pessoas, está um casal em torno dos 50 anos com o qual ela conversa. A certa altura, a mulher descreve a noite em que conheceu o marido com detalhes que vão do figurino à trilha sonora. Após ouvir a longa descrição, Agnès Varda pergunta ao homem: “E ela, como ela estava vestida quando vocês se conheceram?”. Segue-se um silêncio, até que ele, com um sorriso desconsertado, responde: “Eu não lembro”. Faz-se novamente um silêncio e há o corte da cena.

Num primeiro momento, a situação despertou o riso na aluna, mas depois gerou uma intensa curiosidade sobre aqueles dois, que não apareceram mais no filme. Era uma vontade de conhecer o casal, ver onde e como viviam, enfim , entrar no “mundo deles”. Daquela mistura entre graça e curiosidade, surgiram os primeiros traços do tema.

Abril de 2002. Foi nessa época que o filme foi exibido no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, no CCBB-RJ. A aluna estava no 7º período da Faculdade e já pensava em fazer um videodocumetário como projeto de final de curso. A escolha por um documentário se deu pela surpresa que esse gênero guarda. A ausência do diálogo pré-definido no roteiro, o desconhecimento prévio das palavras e gestos dos personagens chamam a atenção da mesma. O festival estimulou essa idéia porque ali havia ótimas produções de diretores famosos e estudantes, mostrando que a inexperiência não é um obstáculo e sim um motivo para se produzir.

Foi fundamental para o projeto o fato de a aluna ter estagiado como assistente de produção no programa de TV da UFRJ, Rizoma. Durante esse período, ela participou de todas as etapas de realização de um vídeo, conhecendo, na prática, o universo de possibilidades que a profissão oferece, tendo a chance, assim, de perceber melhor suas próprias aptidões.

Tendo decidido que seria um videodocumentário, faltava o tema. A cena do casal francês era recorrente na memória da aluna. A partir da cena, surgiu o desejo de falar sobre relacionamento afetivo, mas achou-se o assunto amplo demais e, por isso, foi-se tentando delimitá-lo, até chegar ao casamento. Porém, ainda assim, o tema continuava abrangente, já que o casamento pode envolver o registro civil, a cerimônia, religiosa ou não, e que essa, quando religiosa, não se limita à católica. Além disso, esse era um tema já abordado inúmeras vezes em reportagens de TV e, portanto, via-se a necessidade de buscar uma faceta ainda não tão explorada. Decidiu-se, então, que o eixo central do documentário seria o contrato civil de casamento, aspecto geralmente colocado à sombra da cerimônia religiosa nas reportagens sobre o assunto.

Definido o tema, optou-se por “esquecê-lo”, liberando-se de pensar a respeito e deixando que as idéias aparecessem por si mesmas. Passou-se, então, a anotar tudo o que vinha à cabeça em qualquer momento do dia, no ônibus, no trabalho, na faculdade ou em casa, em qualquer lugar. As idéias podiam ser questionamentos a respeito do assunto, personagens que se gostaria de encontrar ou criações na estética do vídeo. Essa fase de “tempestade cerebral” durou cerca de dois meses.

Em junho, o resultado da “tempestade” foi apresentado ao professor-orientador. A partir daí, foi feito um primeiro cronograma:

- Julho e agosto: pesquisa do tema, da linguagem do documentário e dos personagens
- Setembro: gravação
- Outubro e novembro: edição e reencontro com o casal acompanhado nos preparativos do casamento e na cerimônia

2.1.1 A pesquisa sobre o tema

Após definir o tema, como já foi dito, a aluna buscou as próprias impressões sobre o assunto, ficando atenta também ao que aparecia na imprensa e em manifestações culturais, como o cinema, o teatro e a dança. Cita-se em especial o filme Separações, de Domingos Oliveira, que trouxe interessantes reflexões sobre o relacionamento a dois.

Em seguida, pesquisou-se todo o material disponível sobre o tema casamento e assuntos relativos, como a emancipação da mulher, na videoteca da Rede Globo. Nessa pesquisa, foram encontradas algumas fitas do Globo Repórter, que iam de 1975 a 2000.

A fase de pesquisa de leituras começou pela Internet a partir de uma lista de sites enviada por Patrícia Freitas, aluna de Radialismo da ECO e quem colaborou com sugestões na elaboração do roteiro, além de indicar o nome de uma das entrevistadas, a professora Silvia Pimentel. Nessa pesquisa, foram encontrados materiais que iam de supersticiosas dicas para se ter uma união feliz, até interessantes análises da evolução histórica do matrimônio.

Numa segunda etapa, pesquisou-se a base de dados Minerva* e verificou-se que havia muitos títulos sobre casamento nas bibliotecas da UFRJ. Decidiu-se, então, concentrar-se nas mais próximas, que foram a da ECO, a do CFCH, a do IPUB e a do IFCS. Após ler os livros e teses julgados mais relevantes, foram tiradas cópias do que se considerou serem os “melhores momentos” para a releitura mais tarde.

Numa terceira etapa, pesquisou-se a bibliografia oferecida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, de onde também foram retirados livros pelo sistema de empréstimos entre bibliotecas, além da biblioteca pública do Leblon.

Vale ressaltar a dificuldade em encontrar literatura que abordasse o tema sob o ponto de vista legal. Era comum achar leis nas prateleiras das bibliotecas, mas não análises numa linguagem leiga. Finalmente, através de indicações de funcionários das bibliotecas, chegou-se à Seção Judiciária do Rio de Janeiro, órgão da Justiça Federal, onde foi encontrado o livro O Companheirismo, uma espécie de família (GAMA, 1998).

A fase de pesquisa foi mais intensa antes e durante o período de gravação, mas continuou, ainda que com longas pausas, durante todo o projeto. Os amigos e professores também contribuíram muito nesse processo, emprestando livros e textos sobre o assunto.
______________________

*Base de dados que arrola o acervo informatizado das bibliotecas da UFRJ.


2.1.2 A pesquisa sobre a linguagem do documentário

Na primeira conversa com o professor-orientador, ele indicou a leitura da tese Espelho partido, tradição e transformação do documentário cinematográfico (DA-RIN, 1995). Embora tenha achado o texto riquíssimo em informações e reflexões sobre a teoria e a prática do documentário, a aluna não leu todo o trabalho para a realização do projeto. Curiosamente, essa parte da pesquisa era adiada, preferindo-se ler sobre o tema do documentário e não sobre as inúmeras possibilidades de como fazê-lo. Atribui-se esse adiamento à confusão que as várias linhas de trabalho e os diversos conceitos do “certo” e do “errado” em relação à verdade no documentário provocavam, e ainda provocam, na aluna.

Assim, não se forçou à pesquisa formal sobre a linguagem do vídeo, buscando-se trabalhar com o conhecimento adquirido nas aulas e nos textos já lidos anteriormente.

Apesar da não intensa pesquisa sobre a linguagem do documentário, o trabalho possui uma intenção clara nesse sentido: optou-se por fazer um vídeo para a TV aberta, adotando-se, porém, uma linguagem parcialmente diferente daquela utilizada hoje pelos chamados documentários veiculados por esse meio de comunicação.

Atualmente, observa-se que esse tipo de programa da TV generalista, salvo algumas exceções dos canais educativos, negligenciam a capacidade de compreensão do espectador e empobrecem a capacidade de expressão dos personagens ao utilizar excessivamente o recurso da narração, seja em off ou não. Dessa maneira, o que poderia ser dito pelos personagens fica resumido pela narração, deixando-se para eles um espaço pontual de complementação de suas histórias, visto que a introdução e, muitas vezes, o desfecho são dados pela locução.

Sendo assim, Eu Vos Declaro Marido e Mulher propõe a possibilidade de uma linguagem ágil, com planos recortados, como o ritmo televisivo exige, porém numa agilidade que respeite a expressão de quem conta a história. Dessa forma, há tempo para que o espectador se envolva com o documentário de uma maneira também expressiva sob o ponto de vista da inteligência e da sensibilidade humanas.

Com relação à técnica de gravação, a aluna deixou que o fotógrafo optasse pelos enquadramentos para que ela pudesse concentrar-se na conversa com os entrevistados. Porém, combinou-se previamente que se evitaria mostrar os equipamentos e a equipe, não sendo essa uma regra rígida e sim uma preferência. A preferência se deve ao fato de a aluna ter buscado deixar a tela ocupada pelos próprios personagens. Embora se tenha feito essa escolha, observa-se, no vídeo, que as perguntas da aluna são ouvidas em alguns momentos, não porque se tenha tido a intenção de ser mais “verdadeiro” e sim porque, naqueles momentos da edição, essas perguntas foram importantes para a construção da narrativa.

2.1.3 A pesquisa sobre os personagens

Três dos personagens já estavam definidos por terem histórias consideradas interessantes pela aluna e por serem de seu convívio social. Essas pessoas eram: Regina e Emílio, padrinhos da mesma, e Rita, colega de colégio da mãe da aluna. A escolha dos demais personagens se deu pela indicação de amigos, perguntando a eles se conheciam “histórias interessantes”. Decidiu-se começar pelos amigos por ser esse um caminho mais intimista que o de anunciar em jornais ou colar cartazes em locais estratégicos como cartórios, hipótese que chegou a ser considerada num primeiro momento.

Conforme as “fontes” descreviam as histórias que conheciam, já se fazia uma seleção do que interessava, sempre mantendo o pré-requisito do contrato civil, necessário em todos os casos. Ao final, tendo os contatos daqueles que interessaram, marcou-se um encontro no qual se explicou para cada pessoa ou casal o que era o projeto, pedindo para que eles contassem, brevemente, as suas histórias.

A fase de pesquisa de personagens durou mais ou menos dois meses. Do total de contatados, oito histórias não entraram: duas delas por não “casarem” com a proposta do documentário, três por serem casais que moravam no interior da Paraíba e não terem perspectiva de vir ao Rio, e outras três cujas pessoas negaram-se a participar. Interessante que de um dos casos que não entrou no vídeo, surgiu o contato de um dos casais que aparece no projeto, Ana Paula e Charles.

A partir daí, já se contava com algumas pessoas, mas ainda era necessário um casal para acompanhar nos preparativos do casamento, na cerimônia e alguns meses depois da união legal. Esse casal surgiu quando, em agosto, no aniversário de um amigo da aluna, que estava viajando na fase inicial da pesquisa de personagens, a mesma ligou para dar os parabéns e ele contou que iria casar em setembro. A época era ótima porque permitiria acompanhá-los antes, durante e depois de casados, entregando o projeto no final do ano. Além disso, eles só casariam no civil, foco do documentário. O fato de ele estar se casando com a prima tornou o caso mais interessante. Porém, ainda assim não havia histórias suficientes para atingir o objetivo do vídeo. Por isso, continuou-se a pesquisa através de amigos e conhecidos.

Embora não fosse pré-requisito para a escolha dos personagens, todos os que entraram no vídeo pertencem à classe média. Apesar de Jean Claude Bernardet (FONSECA; SOUZA; MAGALHÃES, 2002) afirmar que a opção por filmar a própria classe é difícil porque não se está analisando o outro, e olhar no espelho perturba o método, a aluna, que também é “filha da classe média”, acredita que no caso deste projeto isso não aconteceu. O fato de os personagens “serem espelho” só contribuiu para a proposta intimista original do documentário. A identificação facilitou a relação aberta com eles e trouxe consigo a expressão interior dos realizadores.

Esse processo resultou, então, nos personagens listados abaixo:

Ana Paula e Charles: Casal que se conheceu pela Internet
Gladys: Psicóloga que está no terceiro casamento.
Maria Eugênia: Viúva do líder sindical e militante do Partido Comunista, Roberto Morena. Ela não abria mão de seu trabalho para se casar.
Moisés: Terapeuta de família e de casal.
Regina e Emílio: Ela brasileira e ele português. A distância os obrigou a tomar decisões.
Rita: Mulher que durante 15 anos teve um romance paralelo ao seu primeiro casamento.
Silvia: Professora de Filosofia do Direito.
Valéria e Vitor: Primos em 1º grau que se casam somente no civil.

Com relação à Silvia Pimentel e ao Moisés Groisman, não foi pedido, nessa fase de pesquisa, que eles contassem suas histórias pessoais, tendo sido contatados apenas como especialistas. No vídeo, porém, o profissional e o pessoal se misturam.

2.1.4 O formato do vídeo

Tendo-se definido que o vídeo seria um produto para a TV, buscando, porém, alterar a linguagem narrativa dominante, viu-se a necessidade de se fazer um documentário dentro dos padrões técnicos da televisão: vídeo com aproximadamente 45 minutos de duração e alto grau de definição de imagem. Por isso, optou-se pela utilização do equipamento Beta para a gravação.

No entanto, como o custo das fitas Beta é muito alto, Tiago Morena, aluno de Radialismo da ECO e quem co-produziu o vídeo pela produtora Sambacine, de sua propriedade juntamente com Patrícia Freitas, sugeriu que se gravasse o documentário em Beta, transferindo o material para fitas mini-DV, bem mais baratas, podendo assim, reutilizar as fitas Beta. Dessa maneira, dentro dos limites financeiros da aluna, o projeto apresenta a melhor qualidade possível para o padrão televisivo. É claro que na transferência de uma fita para outra há perda de qualidade de imagem, mas que não chega a comprometer o padrão exigido.

Em seguida, o Tiago conseguiu dez fitas Beta, algumas com 30, outras com 20 minutos de duração, e um “fitão” de uma hora. Quatro fitas de 30 e o “fitão” foram fornecidos pela ECO, com a autorização do professor José Henrique Moreira. As outras seis foram doadas pela professora Consuelo Lins e pela Produtora Cara de Cão.

2.1.5 Os equipamentos e a equipe

Definido o formato do vídeo, verificou-se que a Central de Produção Multimídia possuía alguns dos equipamentos necessários. Assim, escreveu-se uma carta para a Coordenação da CPM solicitando o uso dos equipamentos para gravação externa e dos laboratórios para a transferência do material de Beta para mini-DV. O Tiago escreveu também uma solicitação ao Núcleo de Tecnologia em Saúde da UFRJ (NUTES) para o uso de dois microfones do tipo lapela, já que a CPM possuía apenas um. A primeira solicitação tinha a assinatura do professor-orientador e a segunda do professor José Henrique Moreira. As baterias da câmera e o microfone do tipo direcional teriam que ser alugados, já que os da escola estavam em estado precário. Porém, existia a possibilidade de se conseguir as primeiras na Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch e o segundo no Núcleo de Audiovisual do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF (IACS). Essas parcerias só foram fechadas durante a fase de produção.

Finalmente, o equipamento de luz seria emprestado pela Apema Produções Cinematográficas, que apoiou o projeto, já que o da CPM não era adequado para a proposta estética escolhida e sim para uma proposta jornalística (luzes “duras”).

Com relação à equipe, optou-se pelo menor número de pessoas necessárias à gravação para que os entrevistados se sentissem à vontade e também para simplificar a produção. Assim, formou-se uma equipe fixa: Tito, cinegrafista da UFRJ, na fotografia / câmera; Gustavo Nasr, aluno de Publicidade da ECO, no som e na assistência de câmera; e a aluna na direção e na produção. Vale ressaltar a dificuldade em encontrar técnicos de som disponíveis quando o Gustavo não podia ir às gravações. A dificuldade aumentava quando se usava o microfone direcional, o que aconteceu nas gravações do noivo comprando o terno, da noiva se arrumando, dos dois depois de casados, do corte de cabelo e do Megacasamento. Por isso, no total, cinco pessoas, entre alunos da ECO, da UFF e da PUC, fizeram a captação de som direto neste vídeo.

2.2 Produção

2.2.1 Os primeiros passos

A produção começou um pouco atribulada, já que se estava no final de agosto, a menos de um mês do casamento da Valéria e do Vitor, e ainda não havia sido feito nenhum registro da fase anterior ao mesmo. Combinou-se que eles informariam as datas dos preparativos - prova das roupas, das alianças etc. Porém, devido aos horários irregulares do casal, as marcações eram feitas sem antecedência. Assim, a primeira gravação - o noivo comprando o terno - foi produzida de um dia para o outro, sendo necessário alugar baterias e microfone direcional, solicitar a saída da câmera junto à CPM, além de pedir autorização por escrito junto às administrações dos shoppings Rio Off-Price e Rio Sul, como se pode ver no apêndice 2, já que o noivo, se não achasse o terno em um, iria para o outro.

Embora a “correria” não seja o ideal, foi muito bom ter começado nesse ritmo para perceber que nem sempre a condição ideal existe, na maioria das vezes, aliás, ela não existiu. Percebeu-se, com isso, que esperá-la, para aí então produzir, seria a ruína do projeto porque ele não sairia do papel.

Portanto, no dia quatro de setembro de 2002, uma quarta-feira à noite, teve início a fase de gravação. Daí para frente, o pouco tempo disponível da Valéria e do Vitor continuava sendo uma realidade com a qual a produção tinha que lidar, já que se queria entrevistá-los antes de se tornarem marido e mulher. Verificou-se, então, que só havia um dia, anterior à data do casamento que, certamente, os dois e a equipe poderiam gravar: domingo, dia oito de setembro, à tarde. Sendo a gravação no bairro da Ilha do Governador, marcou-se também com a Regina e com o Emílio, que moram no mesmo bairro, para entrevistá-los na parte da manhã.

A partir daí, a produção fluiu melhor porque o “medo” de começar já havia sido, em parte, superado. Para o agendamento das entrevistas seguintes, antes de marcar com os entrevistados, verificavam-se os dias que os equipamentos não estavam sendo utilizados, depois os dias que a equipe estava disponível e aí sim marcava-se com os personagens. A produção das entrevistas era pensada visando a otimizar o tempo e a reduzir os custos, por isso tentava-se marcar uma entrevista pela de manhã e outra para à tarde, se possível dividindo os entrevistados por bairros.


2.2.2 O Megacasamento

Em meio à fase de gravação, leu-se na coluna da Patrícia Kogut, Jornal O Globo, que em outubro haveria uma megacerimônia de casamento no Sambódromo. Escreveu-se, então, um e-mail para a colunista, que informou que o evento estava sendo promovido pela Prefeitura do Rio. Após essa informação, conseguiu-se chegar à Secretaria de Desenvolvimento Social, que estava organizando o evento, e à qual foram solicitadas as credenciais para acesso e gravação no Sambódromo.

O Megacasamento foi uma cerimônia coletiva para 500 casais de baixa renda oficializarem suas uniões, como se pode ler no release do evento, anexo 3. A megacerimônia contribuiu, em parte, para a proposta do vídeo por reunir, em sua maioria, pessoas que já viviam juntas e optavam naquele momento pelo registro, “aproveitando a oportunidade”, como elas mesmas disseram. Assim, foi possível traçar um paralelo entre esse evento e o casamento da Valéria e do Vitor, fio condutor da narrativa do documentário, pois a cerimônia coletiva também teve uma preparação que pôde ser acompanhada pela equipe de Eu Vos Declaro Marido e Mulher.

Para a gravação da megacerimônia, foi necessária uma equipe maior e, por isso, solicitou-se uma Kombi da UFRJ para transportar equipe e equipamentos até o Sambódromo. A solicitação foi feita junto ao Sr. João, chefe da garagem no Fundão, e ao Sr. José Roberto, chefe do setor de operações na Praia Vermelha.

2.2.3 As dificuldades

As gravações foram acontecendo, até que se percebeu que entregar o projeto em dezembro seria prematuro porque ainda sentia-se falta de personagens e, principalmente, de uma intenção mais clara sobre como trabalhar com o material bruto. Decidiu-se, então, adiar a entrega para o período seguinte, 2003/1.

Outra dificuldade encontrada, na época, foi a disponibilidade da professora de Filosofia do Direito, Silvia Pimentel, que mora em São Paulo e aguardava resposta sobre uma possível viagem a trabalho para o Rio. Como ela era indispensável ao vídeo, sob o ponto de vista legal do casamento e por sua atuação na implementação do Novo Código Civil Brasileiro, não se cogitava a hipótese de não tê-la no projeto. Dessa forma, era preciso aguardar sua possível vinda à cidade, o que gerava apreensão porque não havia garantia de que a viagem aconteceria e, por outro lado, ir à São Paulo com a equipe seria muito oneroso. Felizmente, a espera valeu a pena e a professora veio ao Rio.

Apesar das dúvidas, as gravações e a pesquisa de personagens continuava. Dessa maneira, chegou-se a mais duas pessoas:

- Arethuza: Juíza de paz e primeira mulher divorciada do Brasil.
- “França”: primeiro homem divorciado do Brasil.

2.2.4 O cronograma de gravação

Abaixo segue o cronograma de gravação realizado:

04/09/02 - noite: noivo compra o terno
08/09//02 - manhã: Regina e Emílio; tarde: Valéria e Vitor solteiros
12/09/02 - manhã: Ana Paula e Charles; tarde: Moisés
13/09/02 - manhã: Rita; tarde: Gladys
22/09/02 - manhã: arrumação do salão para o casamento; tarde: noiva se arruma; noite: casamento
07/10/02 - manhã: corte de cabelo dos noivos do Megacasamento
09/10/02 - noite: Megacasamento
20/11/02 - manhã: Silvia; tarde: “França”
29/11/02 - manhã: Maria Eugênia; tarde: Arethuza
15/12/02 - manhã: Valéria e Vitor casados



2.2.5 Detalhes importantes

Sobre a iluminação nas gravações, por uma questão estética e para simplificar a produção, optou-se pela luz natural. Assim, todas as gravações, exceto a do noivo comprando o terno, a do casamento e a do Megacasamento, foram feitas durante o dia. Ao agendar com os entrevistados, perguntava-se como era a iluminação do local naquele horário em que se estava marcando, para saber se seriam necessários refletores ou até mesmo gravar em outro local. Em duas entrevistas, Rita e Maria Eugênia, o equipamento de luz - 3 fresnéis da Apema - foi utilizado. A iluminação artificial foi necessária porque ambas as residências não recebem luz do sol suficiente para a gravação e, na opinião da aluna, esses dois personagens em especial deveriam ser entrevistados em casa porque isso tornaria as histórias mais íntimas.

No agendamento, além das perguntas relativas à luminosidade, perguntava-se também qual era a voltagem das tomadas para que se pudesse ligar a câmera; informava-se o entrevistado sobre o número de pessoas da equipe que iriam à entrevista e pedia-se para que evitassem usar roupas totalmente pretas ou totalmente brancas, ou estampas com listras ou quadriculados muito pequenos, já que essas cores e estampas não dão um bom efeito na tela.

Sobre a alimentação, quando eram feitas duas entrevistas num dia ou quando o trabalho era mais extenso, como no dia do casamento da Valéria e do Vitor, a equipe almoçava em restaurantes simples. Quando se fazia só uma gravação, era levado um lanche no carro. Assim, cuidava-se do bem-estar das pessoas, que trabalhavam voluntariamente, porém, na medida do possível, “enxugando” os custos.

Sendo o vídeo um projeto com a proposta de ser veiculado na TV, houve a preocupação em pedir a autorização de uso de imagem e voz para todos os entrevistados após a gravação.


2.2.6 A relação com os entrevistados

Diferentemente do que se imaginava, os entrevistados não ficaram “na defensiva” ao falarem sobre suas histórias, tendo sido participativos, demonstrando confiança nas pessoas que estavam por trás da câmera.

Com relação aos especialistas, optou-se por buscar, além de suas opiniões como profissionais, algo mais pessoal, que os mostrasse também como homens e mulheres que possuem vida íntima, e não como seres despersonalizados que detêm a “verdade”.

2.3 Pós-produção

2.3.1 A decupagem e o roteiro

Mais tarde, pelo cansaço gerado na fase de produção e pelas dúvidas acerca da intenção dali para frente, teve-se a certeza de que o adiamento da entrega do projeto era fundamental. Sentiu-se, então, a necessidade de “dar um tempo” antes de iniciar a edição.

Sendo assim, a pós-produção só começou em maio de 2003 com a redecupagem das entrevistas, copiadas para VHS com time code aparente, pois a decupagem feita ainda na fase de produção, conforme cada entrevista ia acontecendo, mostrou-se fraca para a construção do roteiro. Na primeira, não havia falas consideradas fundamentais numa segunda análise do material. Além disso, as entrevistas estavam resumidas e não transcritas.

A nova decupagem foi feita à mão em dois finais de semana e continha apenas que a aluna considerou interessante e não todas as falas do material bruto. Em seguida, foi tirada uma cópia de cada folha da transcrição, sendo essas cópias cortadas em tiras de falas que, espalhadas pelo chão, foram divididas por personagens, tornando-se um “jogo”, cujo objetivo era o encadeamento das partes. A dificuldade em começar foi grande, impedindo a aluna de mover as peças. Essa dificuldade só foi superada após a decisão de montar as falas de cada personagem primeiro para depois misturá-las.

As tiras foram trocadas de ordem inúmeras vezes, até que, no dia seguinte, 25 de maio, depois de muitos cortes e remendos com tesoura e Durex, o primeiro roteiro das falas estava pronto: uma seqüência de trechos manuscritos colados com pedaços de fita em quatro cartolinas coloridas.

Quatro dias depois, alguns ajustes foram feitos no início e no fim dos cortes, acrescentando ou retirando palavras das falas para a melhor coesão entre elas. Percebeu-se também que alguns trechos deixados de fora eram importantes pela força de expressão narrativa, ainda que não fossem necessários para a compreensão da história.

2.3.2 A captura e a edição

No dia dois de junho, iniciou-se a captura do material, tendo sido as falas capturadas e editadas primeiro. Só após a primeira edição das entrevistas, que ficou com aproximadamente 48 minutos de duração, reduzidos num segundo momento para 45, partiu-se para a captura das imagens sem entrevistas, que, diferentemente das falas, foram selecionadas na própria ilha de edição, tornando essa fase um pouco mais lenta. Incluem-se nessas imagens os filmes de Super-8 dos primos Valéria e Vitor, telecinados, não profissionalmente, utilizando-se uma câmera DSR 250.

A partir da entrada das imagens na edição, as falas foram tendo a estrutura alterada, embora alguns encadeamentos estivessem bem definidos desde o início e tenham sido mantidos até o fim. Daí para frente, o roteiro foi sendo construído na própria ilha de edição. Nesse processo, foram definidas as imagens de cobertura que faltavam, somadas às fotos escaneadas e às imagens que já haviam sido pensadas na fase de produção - Interior do Museu Nacional de Belas Artes e trapezistas de circo. Interrompeu-se, então, a edição das imagens e falas para gravar o que faltava. Seguiu-se, assim, o seguinte cronograma:

30/06/03 - manhã: Museu Nacional de Belas Artes; tarde: Antiquário Rio Scenarium
02/07/03 - noite: trapézio na Fundição Progresso
04/07/03 - manhã: arame na Escola Nacional de Circo e imagens de rua

Após as gravações, feitas em uma câmera Sony TRV 950, já que os equipamentos da CPM estavam retidos por falta de seguro, selecionou-se e capturou-se o material gravado, além de outros trechos do material bruto, para fechar a edição. Com a edição praticamente finalizada, fez-se a correção das cores, o tratamento do som e pequenas inserções de imagens.

Abaixo segue um resumo das informações técnicas sobre o vídeo. Ressalta-se que os números são aproximados:

Material bruto Material capturado Duração captura Duração edição
Horas 14 3 23 61
Dias 6 11


Gravação Captura Edição Efeitos e fotos Correção de cores Tratamento de som
Equips. Câmeras Beta UVW 100 e Sony TRV 950 Câmera Sony TRV 17 e progr. Adobe Premiere 6.5 Progr.Adobe Premiere 6.5 Progrs. After Effects 5.5 e Photoshop 7.0 Progr. Adobe Premiere 6.5 Progrs. Cakewalk Sonar 2.2 e Sound Forge 6.0


2.3.3 A construção da narrativa

Como já se afirmou na introdução, o documentário Eu Vos Declaro Marido Mulher segue as histórias pessoais dos personagens, deparando-se, nesse caminho, com a questão do contrato de casamento. Por isso, na edição, buscou-se uma narrativa intimista, tendo fotos, filmes, vídeos e jornais dos entrevistados como um recurso a mais para atingir esse objetivo. Dessa maneira, intencionou-se deixar claro que o motivo de aquelas pessoas estarem no vídeo é o casamento, esse é o fio condutor, mas que sobre essa linha, forma-se um mosaico humano de histórias. Nesse sentido, a questão do matrimônio “costura” as histórias e provoca o questionamento, mas não é ela em si o único fim.

No processo de edição, a aluna e o editor construíram juntos a narrativa, sendo essa interação bastante enriquecedora sob o ponto de vista criativo.

Importante atentar para o fato de que a aluna Leila de Castro Valoura adota o nome Leila Kaas nos créditos do vídeo, tratando-se, portanto, da mesma pessoa.